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13.7.07

O Nada de Nenhures






















O Nada,
O Nada de nenhures,
O Nada de patavina de nada!
É o genial princípio e fim de tudo!
E não precisa de se exibir,
Nem de ser coisa nenhuma,
Nem de costeleta alguma,
Nem de mergulhar as mãos na lama,
Nem do que quer que seja,
Para fazer, seja o que quer que for!

Um verdadeiro Deus
não precisa nem de existir!
Um Deus não é uma essência,
Um Deus é uma premência alusiva ao amor!

E se pensam que o acto de pensar
vos dá existência e vos liberta da morte,
Estão redondamente enganados!
Não têm sorte nenhuma!

O acto de pensar só vos desnuda,
e mingua a mortal migalha a um vácuo de inconcebível nada!

E não há nenhuma eternidade mais além!
Nem mais nada que Nada!

E assim,
A Partir de hoje,
Estão alertados a não pensar!
Para que não percam, pela segunda vez,
Por culpa de um fútil juízo, o Paraíso!

E não me olhem assim,
Duvidando de meu desmiolado siso,
Porque não sou conclusão de coisíssima nenhuma,
Nem me tenho por réu de nada!
Estou inocente como o mais puro sapiente de sua ignorância!
Nem sou guru, profeta, nem nada
que se pareça ou desavenha!

E se quiserem alcançar a eternidade,
simplesmente, não pensem!
Deixem que os iluminados eleitos
vos pensem e componham!
Vos tragam a costeleta
e o barro em pensamentos já amassados!

Pensar é uma pura perda de tempo,
e, de todos, o maior pecado!
Já tudo foi pensado!
Nada mais há que pensar!

Sejamos falsa e estupidamente livres e eternos!

Livremo-nos de pensar!
Comprem os pensamentos no supermercado!
Amadurecidos, coloridos, idealizados!
Os pensamentos novos conduzem-nos ao efémero!
À revolta!
Ao abismo!
Ao Nada!

A eternidade é o filho adoptivo
preferido da necedade,
O santo e miraculoso milagre do paraíso!
Tomem juízo,
Aceitem dos eleitos, a verdade!

E por favor, não me olhem assim!
Eu não sou nem um princípio, nem um fim!
Eu nem sequer retenho
uma fútil razão para existir,
Eu sou muito menos que zero
a subtrair por nada!

Eu nunca quis o pecaminoso gozo de pensar,
Esta droga é um malefício,
um incurável vício!
Um desperdício de tempo
sem tempo nem lugar algum!

Livrem-me disto
Deste mal que se entranhou em mim!

Ah!..
Mas quando eu for um fadado velho
de ameaçada sobrevivência,
Eu também quero de volta a minha inocência!
E vou bater o pé,
e exigir o Pai Natal de regresso,

E a todos os santos, e a Deus, eu peço:
Eu também quero entrar no céu,
sem ter demónios à perna!
Eu não vou desperdiçar
a minha entrada na vida eterna!

Perceberam?
Se não perceberam nada,
estão de parabéns,
É vossa a eternidade, está garantido!
Mas se perceberam,
se tudo faz sentido,
ah... desgraçados,
estão condenados
ao mais cruel de todos os males:
Ao Nada!
O Nada de Nenhures!
Ao Nada de coisíssima nenhuma!
O Nada genial criador de tudo!

5 comentários:

BIA disse...

Percebi...Perfeitamente, estou condenada ao Nada!

Recuso-me a pensar nisso!!!

BIA

Anônimo disse...

Todos lindos os teus poemas, mas para mim "o Nada de Nenhures" continua sendo o preferido entre todos.

Joa de Arievilo disse...

Também para mim - raios partam a humildade! - é ímpar:

Anônimo disse...

Reduza o que escreve a haikai (dois ou três versos). E chega. Um poema não é uma lista interminável de palavras nem o intuito de escrever complicado como se se estivesse numa abominável aulinha de escrita criativa. Small is beautiful.

Joa de Arievilo disse...

Querida criatura Haikai limitada ao small is beautiful, muito grato pelo seu comentário. O que muito caracteriza o ser humano é precisamente pensar, mesmo que na maioria das vezes digamos disparates, como quase sempre em que tentamos balizar algo. Pensar é muito saudável, mas o pensamento tem de ser de nosso exercício mental. Quando de outrem, deve ser tão mastigado e digerido quanto a nossa inteligência necessite à sua compreensão e utilização.
Nem o elefante é grande, nem a formiga é pequena; nem o poema é pequeno, nem o romance é grande.
Quando está a limitar algo a uma dimensão, à sua, está apenas a limitar-se a si, porque alguém vai chegar que amplia a pequenez da sua totalidade cerceada.
Por acaso este poema que refere é, tão-somente um dos melhores que tenho, senão melhor, e precisamente pela criatividade.
E não tenha medo da abominável aulinha de escrita criativa, receie é essa soberba que o limita ao small is beautiful.
«Perceberam?
Se não perceberam nada,
estão de parabéns,
É vossa a eternidade, está garantido!»